Tortura, amor, humor de privada e Charles Dickens no século XXI.Roteiro: Simon Beaufoy
País: Reino Unido, EUA
Ano: 2008
Duração: 120 min
Site: http://www.foxsearchlight.com/slumdogmillionaire/
Nota: 3.5/5
O filme começa assim:
B. He’s lucky
C. He’s a genius
D. It is written"
Após o massacre de sua mãe os meninos ficam órfãos, assim como a menina Latika. Juntos formam o grupo Os Três Mosqueteiros e viram meninos de ruas, mas são rapidamente "resgatados" por um gânster que os obrigam a esmolar na rua. Inseparáveis, Jamal e Latika criam um vínculo, mas acabam involuntariamente se separando ao longo do caminho. Apesar disso, Jamal passa os próximos anos procurando por Latika
e essa busca nos leva em direção às outras histórias que dão o conteúdo das perguntas no programa. Salim é motivado e quer vencer na vida. Faz qualquer coisa para ter sucesso, rouba do próprio irmão para se dar bem e até atrapalha sua busca pela Latika. Mas em momentos adversos ele é um irmão mais velho e capaz de qualquer coisa para proteger Jamal. Salim é, assim, não apenas um "Zé Pequeno", mas um personagem multi-dimensional.O que mais impressiona no filme foi a capacidade do diretor e do roteirista em mostrar a híper-realidade de uma cidade como Mumbai, com mais de 19 milhões de habitantes. Deve ter algo em comum com o que Dickens viu em Londres no século XIX. Crescimento desproporcional, convivência entre uma classe cada vez mais rica e a criação de protótipos das primeiras favelas. No filme vimos os extremos da riqueza e da pobreza, numa cidade capitalista extraoridnária que está, nitidamente, se auto-digerindo. É uma cidade que não consegue crescer sem brutalizar seus habitantes mais vulneráveis.
Os atores são muito bons, principalmente os na fase criança dos personsagens. (São três fases: criança, adolescente e adulta). São crianças que vêm de fato dos slums de Mumbai, um fator que dá autenticidade ao filme. Os atores em vez de ganharem um salário e pronto ganharam bolsas de estudos e se continurem frequentando a escola até os 16 anos, receberão uma quantia interessante de dinheiro.
Apesar de uma abordagem documentarística, o flime não é de forma alguma naturalista e se orienta primordialmente pelo amor romântico de conto de fadas entre Jamal e Latika. Morte, miséria, abuso e amor passional.. só possível mesmo em Bollywood, onde é possível ter todos os extremos. O único problema é que eles praticamente não se vêem durante o filme. Para enfatizar essa ligação, cada momento entre os dois é valorizado, tornando as cenas entre os dois intensamente dramáticas. Talvez até demais.
Outra coisa possivelmente irritante é a ordem milagrosa das perguntas e ordem cronológ
ica da vida Jamal: se encaixam perfeitamente. Só no cinema mesmo. Mas tudo bem. Um grande mérito é que, apesar de ser um filme sobre memória e, consequentemente constituído de flashbacks, ele não deixa de andar constantemente para frente.Uma cena interessante é quando Jamal tem uma "oportunidade" de colar, depois que o apresentador supostamente lhe dá a resposta. O Jamal do passado teria acreditado na boa vontade do homem, já o Jamal adulto, após todos os sofrimentos e traições, na sua vida, já consegue questionar essa vontade e pensar por si só. A forma como o apresentador coloca a resposta nas mãos dele também é interessante e foi uma das minhas partes favoritas. (Pára por aqui para não estragar para aqueles que não viram o filme..)
O mais belo do filme não é o romance entre Jamal e Latika, mas a luta de Jamal por uma vida melhor. Não
é um flime sobre dinheiro, inclusive é nítido que Jamal não está ali jogando pelo dinheiro, mas pelo amor. É apenas "convinente"... sei. Quando ele ganha, ele não aparece com o dinheiro, mas continua visualmente como o mesmo Jamal que fomos conhecendo ao longo do filme. Existe, na realidade, a mensagem oposta: quem cobiça dinheiro se dá mal (pode, por exemplo, acabar morrendo numa banheira cheio de dinheiro - uma mensagem "subliminal" não muito sutil e um pouco brega mesmo).Assim como "The Full Monty" do mesmo roteirista, é um filme sobre underdogs - os mais fracos. Chamar alguém de cachorro na Índia é aparentemente o pior insulto.. daí "slumdog"... E Jamal, como um cachorro, aparentemente não sabe nada, mas sabe observar seus arredores (que é suficiente para ganhar o jogo). Ele cria seu caminho, apesar da falta de dinheiro, da falta de prestígio, mas sempre mantendo a expectativa na aquisição. É um filme perfeito para o atual clima mundial que explora a sensação mais popular do momento: a esperança.
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