quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Slumdog Millionaire

Tortura, amor, humor de privada e Charles Dickens no século XXI.

Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy
País: Reino Unido, EUA

Ano: 2008

Duração: 120 min

Site: http://www.foxsearchlight.com/slumdogmillionaire/

Nota: 3.5/5

Finalmente fui assistir ao famoso "Slumdog Millionaire". Evitei ler muito sobre o filme e confesso que fui um pouco sem saber muito a respeito da história. Sabia apenas que era sobre um garoto dos slums que acertava todas as perguntas do programa "Who Wants to Be a Millionaire?"

O filme começa assim:
"Jamal Malik is one question away from winning 20 million rupees. How did he do it?
A. He cheated
B. He’s lucky
C.
He’s a genius
D. It is written"


Descobrimos a resposta somente no final do filme. A primeira cena é Jamal sendo torturado por um agente da polícia, na tentativa de descobrir como ele conseguiu colar no programa. Ele não é particularmente inteligente, nem instruído, portanto, permanece a grande pergunta: como ele saberia tanta coisa? E com o uso de flashbacks, descobrimos justa mente isso. Um dos primeiros flashbacks mostra ele como menino pobre com seu irmão Salim, também um dos principais personagens do filme. O irmão tem caráter duvidoso desde criança e o tranca num banheiro na hora que a estrela de Bollywood predileta de Jamal chega de helicóptero. Ele dá um jeito (isso envolve um pouco de humor de privada), consegue sair do banheiro e é o único que consegue o autógrafo do ator. É a primeira cena onde vimos a relação conflituosa entre os irmãos. Salim, o malandrinho, tenta se dar bem, mas quem acaba encantando o ator é Jamal, de bom coração, inocente e ingênuo. Essa cena da sua infância, que ele conta ao policial é prova de que ele de fato sabia a primeira pergunta que era sobre aquele ator especifico de Bollywood. E assim continua o filme: flashbacks e cenas de tortura...

Após o massacre de sua mãe os meninos ficam órfãos, assim como a menina Latika. Juntos formam o grupo Os Três Mosqueteiros e viram meninos de ruas, mas são rapidamente "resgatados" por um gânster que os obrigam a esmolar na rua. Inseparáveis, Jamal e Latika criam um vínculo, mas acabam involuntariamente se separando ao longo do caminho. Apesar disso, Jamal passa os próximos anos procurando por Latika e essa busca nos leva em direção às outras histórias que dão o conteúdo das perguntas no programa. Salim é motivado e quer vencer na vida. Faz qualquer coisa para ter sucesso, rouba do próprio irmão para se dar bem e até atrapalha sua busca pela Latika. Mas em momentos adversos ele é um irmão mais velho e capaz de qualquer coisa para proteger Jamal. Salim é, assim, não apenas um "Zé Pequeno", mas um personagem multi-dimensional.

O que mais impressiona no filme foi a capacidade do diretor e do roteirista em mostrar a híper-realidade de uma cidade como Mumbai, com mais de 19 milhões de habitantes. Deve ter algo em comum com o que Dickens viu em Londres no século XIX. Crescimento desproporcional, convivência entre uma classe cada vez mais rica e a criação de protótipos das primeiras favelas. No filme vimos os extremos da riqueza e da pobreza, numa cidade capitalista extraoridnária que está, nitidamente, se auto-digerindo. É uma cidade que não consegue crescer sem brutalizar seus habitantes mais vulneráveis.

Os atores são muito bons, principalmente os na fase criança dos personsagens. (São três fases: criança, adolescente e adulta). São crianças que vêm de fato dos slums de Mumbai, um fator que dá autenticidade ao filme. Os atores em vez de ganharem um salário e pronto ganharam bolsas de estudos e se continurem frequentando a escola até os 16 anos, receberão uma quantia interessante de dinheiro.

Apesar de uma abordagem documentarística, o flime não é de forma alguma naturalista e se orienta primordialmente pelo amor romântico de conto de fadas entre Jamal e Latika. Morte, miséria, abuso e amor passional.. só possível mesmo em Bollywood, onde é possível ter todos os extremos. O único problema é que eles praticamente não se vêem durante o filme. Para enfatizar essa ligação, cada momento entre os dois é valorizado, tornando as cenas entre os dois intensamente dramáticas. Talvez até demais.

Outra coisa possivelmente irritante é a ordem milagrosa das perguntas e ordem cronológica da vida Jamal: se encaixam perfeitamente. Só no cinema mesmo. Mas tudo bem. Um grande mérito é que, apesar de ser um filme sobre memória e, consequentemente constituído de flashbacks, ele não deixa de andar constantemente para frente.

Uma cena interessante é quando Jamal tem uma "oportunidade" de colar, depois que o apresentador supostamente lhe dá a resposta. O Jamal do passado teria acreditado na boa vontade do homem, já o Jamal adulto, após todos os sofrimentos e traições, na sua vida, já consegue questionar essa vontade e pensar por si só. A forma como o apresentador coloca a resposta nas mãos dele também é interessante e foi uma das minhas partes favoritas. (Pára por aqui para não estragar para aqueles que não viram o filme..)

O mais belo do filme não é o romance entre Jamal e Latika, mas a luta de Jamal por uma vida melhor. Não é um flime sobre dinheiro, inclusive é nítido que Jamal não está ali jogando pelo dinheiro, mas pelo amor. É apenas "convinente"... sei. Quando ele ganha, ele não aparece com o dinheiro, mas continua visualmente como o mesmo Jamal que fomos conhecendo ao longo do filme. Existe, na realidade, a mensagem oposta: quem cobiça dinheiro se dá mal (pode, por exemplo, acabar morrendo numa banheira cheio de dinheiro - uma mensagem "subliminal" não muito sutil e um pouco brega mesmo).

Assim como "The Full Monty" do mesmo roteirista, é um filme sobre underdogs - os mais fracos. Chamar alguém de cachorro na Índia é aparentemente o pior insulto.. daí "slumdog"... E Jamal, como um cachorro, aparentemente não sabe nada, mas sabe observar seus arredores (que é suficiente para ganhar o jogo). Ele cria seu caminho, apesar da falta de dinheiro, da falta de prestígio, mas sempre mantendo a expectativa na aquisição. É um filme perfeito para o atual clima mundial que explora a sensação mais popular do momento: a esperança.

Mil anos de orações

Mil Anos de Orações

Diretor: Wayne Wang

Roteiro: Li Yiyun e Michael Ray

Ano: 2007

Duração: 83 min



Ontem fui ao cinema com minha mãe sem termos decidido qual filme iríamos ver. Vimos diversos cartazes e a maioria deles pareciam de filmes bons. Excluídos os filmes que já vimos e os que não nos interessaram restaram três filmes: Café dos Maestros (documentário sobre tango), A Troca (filme do meu ídolo, Clint Eastwood) e Mil Anos de Orações (um filme sobre um senhor Chinês que vai aos EUA visitar a filha).

Importunamos a caixa em busca de algo que nos desse algo mais preciso acerca dos filmes. Ela nos deu um livrinho em que encontramos a seguinte sinopse do Mil Anos de Orações: “Ao viajar para os Estados Unidos para visitar a filha recém-divorciada, chinês conhece iraniana que o conquista apesar das dificuldades de comunicação.” A sinopse me conquistou, um caso de amor entre um chinês e uma iraniana nos EUA! Nossa, um filme assim tem que ser bom.

O caso é que eu e minha mãe fomos enganados. Não que houvesse qualquer informação falsa. O velho chinês estava lá, assim como a filha divorciada e a sedutora senhora iraniana. Acontece que fomos em busca de um filme romântico e acabamos nos deparando com um filme cujo relacionamento romântico não é sequer um dos temas mais importantes!

Após o filme fiquei me perguntando se eu veria a o filme se ele tivesse a sinopse apropriada. Minha conclusão é que eu teria visto outro filme. O que teria sido uma perda, pois Mil Anos de Oração foi o filme certo para mim naquele momento, fiquei muito feliz por termos optado por ele naquele momento. Então sobre o que é este filme e por que ele eu fiquei tão feliz em vê-lo? Vamos ao filme :)

O início mostra o encontro entre o pai (um senhor aposentado) e a filha (uma chinesa que morou toda sua vida adulta nos EUA). Em poucos minutos de para perceber que a relação pai/filha seria importante no filme. Como deu para perceber o estranhamento cultural temperaria o filme. Sabe, gente, este lance de estranhamento cultural é ótimo para um humor leve – o que de fato ocorreu neste filme.

A ênfase na questão cultural foi tão ostensiva que até a primeira metade do filme achei que era o tema central. A cena do velhinho chinês com a excitada (não no sentido sexual) jovem de biquíni é muito legal. A cena do velhinho sendo catequizado por jovens mórmons é muito engraçada. E o frustrado relacionamento com a senhora iraniana partiu meu coração... Como já disse, estranhamento cultural é bom material cinematográfico.

O caso, entretanto, é que o tema central do filme era outro. E se revelou nas diversas cenas de refeição – único espaço onde pai e filha conviviam. A medida em que velhas mágoas foram sendo desenterradas tornava-se mais claro as diferenças de expectativas entre ambos. O pai, trabalhador dedicado, relegou a família ao segundo plano. A filha, chinesa que passou toda a vida adulta nos EUA, tinha valores inconciliáveis com os do seu genitor.

Agora vou descrever uma parte crítica do filme, onde ocorre o evento mais tocante e sofisticado. Só vi uma sessão mas minha impressão é de que ele ocorre no terceiro quarto do filme, aproximadamente dos 40min aos 60min de filme. É mais ou menos assim:

O pai está preocupado com a filha. Ela saiu para uma festa e mesmo no último ônibus ela não voltou. O pai espera a filha fora de casa, ansioso. Eis que surge um carro bem velho com um homem loiro com cara de galã e com a filha chinesa ao lado. O senhor se esconde nas sombras. O casal não parece estar bem, o galã se aproxima (talvez em busca de um beijo). A chinesa evita um contato íntimo.

O galã fala alguma coisa.

A chinesa replica – Você devia se guardar para sua mulher e sua filha.

Galã – Voltarei a estudar Russo.

Chinesa – Você acha que o dinheiro é importante mas um dia sua filha irá crescer e você se dará conta de que ela já é uma mulher. Então não poderá ensiná-la coisas que só você conhece.

Galã – A gente não tem mais chance?

Chinesa – Na China tem um provérbio que diz que para atravessar um rio em uma valsa junto com alguém é necessário trezentas orações. Para para dividir o travesseiro é necessário mil orações.

Galã – Quantas orações nós temos?

Chinesa – Não o suficiente para nos casarmos.

A chinesa entra em casa sem o galã. O pai rapidamente entra na casa pela porta dos fundos. Quando a chinesa entra na sala o pai a espera, sentado no sofá.

Chinesa – Pai, você ainda não dormiu?

Pai – Eu estava preocupado. Quem era aquele russo?

Chinesa – Era só o que me faltava, antes bisbilhotou minhas coisas agora fica me espiando.

Pai – Só estou preocupado com você. Olha que horas são! Isto não é hora de moça direita chegar em casa.

Chinesa – Eu sou divorciada, o que no seu dicionário significa que não sou boa moça. Não é?

Pai – Eu nunca disse isto. Só estou preocupado, uma moça na sua posição toma medidas equivocadas.

Chinesa – Pai, eu não perguntei isto ainda. Mas quanto tempo você pretende ficar aqui, nos EUA?

Pai – Até você ficar bem.

A filha fica agoniada, tem algo preso em sua garganta. Algo que tem que sair, mas é difícil dizer.

Chinesa – Pai, agora você vai entender. Não fui abandonada pelo meu marido, eu o abandonei.

Pai – Mas por quê?

Chinesa – Pelo Russo.

Pai – Mas ele não é casado? Você traiu seu marido e fez o russo trair a mulher dele! Isto não tem sentido! Tinha algo errado no casamento?

Chinesa – Não, pai. Não tinha. Pai, está tarde, vamos dormir.

Pai – Por que você não me falou estas coisas? Estou aqui para te ajudar.

Chinesa – Não falo porque nunca falei! Em nossa casa nós nunca falávamos dos nossos problemas. Você e a mãe nunca conversaram sobre problemas.

Pai – Nós não tínhamos problemas.

Chinesa – Eu sei de tudo, pai. Você nunca falou, a mãe nunca falou, mas as pessoas falavam. Falavam na minha frente e falavam na frente dela. As pessoas falavam que você não era um cientista, era um secretário. E o tempo em que você dizia que estava trabalhando estava de fato traindo a mãe.

O pai fica cabisbaixo, sem falar nada, apenas sentado olhando para o chão. As luzes estão apagadas e tudo está escuro, à exceção da luz que entra pela janela (proveniente de algum poste).

Muito bem, antes de chegar ao mais importante desta situação farei umas pequenas considerações para dar uma luz sobre o que se trata o filme: A chinesa discute com o galã russo. Ela é apaixonada por ele mas tenta convencê-lo a abandoná-la em prol da mulher e filha (que estão na Rússia). Enquanto a chinesa e o galã discutem o velho pai escuta tudo nas sombras.

Após a discussão da chinesa com o velho pai descobrimos o rancor que a chinesa tem pelo comportamento do pai (traindo a mãe e sendo ausente com a filha). Hora, daí fica claro que a crítica ao galã russo é uma crítica ao próprio pai. Crítica esta que inadvertidamente alcançou o pai (dado que ele espionava tudo escondido nas sombras). Entretanto tal crítica indireta não podia ser entendida pelo pai - como fica claro no fim do desenlace (terceiro quarto do filme).

Retomemos o filme: No dia seguinte à briga vemos um quarto (em que o velho pai está sentado, ainda cabisbaixo) e a sala vazia.

O pai fala, aparentemente sozinho – Ontem você achou que me magoou. Você não me magoou. Vamos aos fatos, sem sentimentos, apenas os fatos puros. Eu era um cientista e estava empolgado com o lançamento do primeiro foguete chinês. A mulher com quem eu supostamente traia sua mãe também trabalhava lá. Nós estávamos muito empolgados e conversávamos muito.

Enquanto o pai fala a filha aparece em cena, ela entra na sala vestida para o trabalho. O velho pai não para de falar – Os líderes do partido acreditavam que nós estávamos apaixonados, eles queriam que nós nos casássemos. Mas eu nunca poderia fazer isto.

A filha sai de casa. O pai nem se dá conta de sua saída e continua falando – Daí os líderes me rebaixaram para secretário. Mas eu nunca tive nada com aquela mulher, nem sequer peguei em sua mão. Eu nunca poderia trair sua mãe.

Fim do desenlace.



Nesta última cena o pai fala sem prestar muita atenção se a filha está ouvindo e a filha sai de casa sem prestar atenção na fala que poderia ter sido a mais importante na vida de ambos. Toda a mágoa de ter uma pai que trai a mãe e que evita falar a respeito se embasa em um equívoco, dado que o pai não traiu a mãe.

Creio que esta é a parte mais importante e chave para a compreensão do filme. Ele trata do estranhamento cultural, trata do relacionamento entre a chinesa e o ex-marido, trata da chinesa e do Russo, trata do velho pai e sua amizade com a iraniana. Mas ele trata acima de tudo da dificuldade de comunicação entre duas gerações muito diferentes.

Daí a sua universalidade. Creio que este filme retrate (as vezes mais fielmente, as vezes menos fielmente) um tipo de relacionamento entre pais e filhos. Um tipo bem freqüente, se vocês perdoam meu chute.

E por isto “Mil Orações” é um filme que me agradou muito. Ele me fez sair um pouco do universo de filmes que sempre vejo: Romance, suspense, drama trágico e comédia.